Não tem jeito, toda vez é a mesma coisa. Vai e volta, vem e vai, e toda vez que eu chego em Bom Conselho, ainda que a gente não queira falar mais sobre a atual administração municipal, por não fazer mais parte do nosso cotidiano, sempre aparece um amigo, vizinho, conhecido para contar as novidades da terrinha, e como a atual administração está tocando o serviço para a nossa gente.
Pena que as novidades não são boas. Desta feita foi uma conhecida nossa, usuária do Hospital Municipal, inconformada com os serviços encontrados por lá. Uma área indigesta para se comentar por aqui, até porque sou suspeito a falar, mas desta vez não vou me furtar do ofício, uma vez que membros da administração atual, quando tomaram posse em janeiro, disseram que encontraram um verdadeiro caos na saúde. Falando em caos, e escutando o depoimento que eu escutei, eu vejo que entre essas pessoas e eu, o vocábulo tem significados bem distintos.
Promessa de campanha do prefeito, a idéia (impraticável) de se colocar dois plantonistas na emergência do hospital todos os dias está longe de ser realizada. Aos finais de semana essa meta sequer chegou perto de ser concluída, e nas escalas do meio da semana ainda restam muitos vazios nas escalas de 24 horas. Bom Conselho é uma das cidades da região que melhor paga aos médicos, e por isso sempre manteve a escala completa todos os dias da semana, possível com um só médico. Colocando dois médicos, a folha de pagamento fica sobrecarregada. Se diminuir o salário para conseguir pagar dois, os profissionais de fora se afastam da cidade. Uma realidade já enfrentada pela administração passada, que até tentou colocar dois médicos por plantão, mas não conseguiu pelas mesmas dificuldades.
Aí você me pergunta: e por que cargas d´água o prefeito foi inventar de prometer que o hospital iria funcionar com dois médicos na emergência? Eu não sei essa resposta. Só posso atribuir a promessa à imaturidade administrativa do então candidato, que mesmo sem conhecer a realidade de quem estava do outro lado da cadeira, prometeu algo impalpável para uma cidade pobre como Bom Conselho. Mas já que prometeu... cumpra-se, como diriam os magistrados. Ser oposição, reclamar do que está e até do que não está errado é a parte fácil do processo.
Vamos supor, então, que você procure o Hospital Municipal em busca de uma consulta ambulatorial com um especialista. Uma pena, mas provavelmente você deverá se deslocar para outra cidade em busca de atendimento. Um ambulatório que era composto de clínicos, ginecologista, obstetras, pediatras, pneumologista, cardiologista, entre outras especialidades, está praticamente desativado. Problema que será resolvido tão logo o prefeito ponha em prática mais uma das suas promessas de campanha: a construção de uma Policlínica em Bom Conselho, prestando atendimento médico especializado de qualidade.
Mas se não há condições nem de bancar dois plantonistas na emergência durante as 24 horas de plantão, como então montar um serviço de atendimento oferecendo várias especialidades, com mão de obra mais cara? Isso eu não sei, mas já que prometeu...
Situação mais preocupante, ao meu ver, se resume aos novos filhos de Bom Conselho que estão chegando. Ou melhor, que poderiam chegar. É absurdo o número de transferências de gestantes que estão sendo feitas com destino às outras cidades que possuam atendimento obstétrico de emergência. Se o parto for normal, sem complicações, a situação é menos grave, e o parto pode ser possível em Bom Conselho. Partos complicados e gestações de risco continuam sem amparo, tudo isso porque o profissional que ficava de sobreaviso para uma dessas urgências, o Dr. José Alípio, nem sequer foi procurado pela atual administração para continuar à frente da sala de parto. Também pudera, com a credencial de marido da ex prefeita. O preocupante é que, até hoje, não chegou nenhum outro profissional para responder pelas urgências e emergências obstétricas, numa cidade com mais de 50 mil habitantes. E a gente fica rezando para que as gestantes de risco não paguem um preço caro por não contar com um profissional mais perto.
Cirurgias eletivas, antes realizadas periodicamente pelo cirurgião Dr. Sebastião Lessa, também foi um serviço que deixou de existir. Se você quiser resolver seu problema de vesícula, hérnia, submeter-se a uma histerectomia ou outras cirurgias de médio porte vai ter que procurar resolver seu problema fora de Bom Conselho. Lembro-me bem ter escutado na rádio, naquela entrevista despreparada e desrespeitosa concedida pelo prefeito em janeiro, que, no máximo, em fevereiro, as cirurgias eletivas seriam retomadas. Pelo visto, até agora, ficou só no discurso.
Nem mesmo as Unidades de Saúde da Família vão escapar das minhas observações. Na verdade, uma em particular, a do importante distrito de Rainha Isabel, o qual tive a honra de servir por um curto período. Até pouco tempo atrás a comunidade, de mais de 10 mil habitantes, estava sem médico. Comunidade que não podia ter sido esquecida nem sequer por um dia, quanto mais por um mês, até dois. A gente daqui fica na torcida, pelo carinho que guardei daquela localidade, que o colega médico de lá sirva o nosso povo com o carinho, atenção, respeito e dedicação que ele merece.
Por falar em distritos, vejam só, a gente recorda da situação do torrão natal do prefeito, Logradouro dos Leões, que, passados quase cem dias de administração, não conta com atendimento médico regular em seu posto de saúde. Aproveito também para relembrar outra promessa (impalpável) de campanha: atendimento médico de urgência em todos os distritos, desafogando a emergência do hospital. Parece que o nosso comandante maior vai ter que tirar vários médicos da cartola para poder cumprir seus ans(devan)eios.
Quem vê de longe peças publicitárias bonitas, bem feitas, publicadas nos mais diversos blogs, páginas, jornais, pensa que Bom Conselho está muito bem, obrigado. Somente estando perto, escutando o grito das ruas, o que o povo vem nos falando no dia a dia, como eu escutei no último fim de semana, é que vai percebendo que a administração bem sucedida propalada não passa de uma falácia, e precisa reciclar seus quadros urgentemente para que uma decepção ainda maior não ocorra. Uma administração que, pelas promessas lançadas, de uma mudança geral, radical e imediata, está sendo uma das mais mal avaliadas pela população de Bom Conselho.
Ao mesmo tempo, não deixo de ficar satisfeito. Não pela miséria de nossa gente, jogada ao Deus dará, mas por acompanhar a experiência de quem tanto nos criticou agora à frente do nosso município. Satisfeito por perceber que agora eles sentem quais foram as nossas dificuldades, vendo o quanto podem ter sido injustos em algumas de suas colocações. Satisfeito por saber também, que tantos problemas citados por mim aqui, que nosso povo enfrenta, não resolvidos por administrações passadas, agora serão resolvidos.
Como? Eu não sei. Mas promessa, meu caro prefeito, ah... promessa é dívida! E dívida, essa o povo sabe cobrar.